Abençoados são os mansos...
“Abençoados
são os mansos, porque eles herdarão a terra.” Mateus 5.3 (BKJ 1611)
Esta não é a primeira, a última e muito menos a única das bem aventuranças ensinadas por Jesus. Mas de forma inquestionável, ela compõe o grupo de qualidades que naturalmente se espera que um seguidor de Cristo expresse. Sendo assim, é sempre bom refrescar nossa memória com o significado dessa mensagem.
"Praus" é o adjetivo na língua grega de onde traduzimos para o português a palavra "Mansos". Essa expressão caracteriza uma pessoa que é gentil, humilde, atencioso. Consequentemente, manso é alguém que exerce o
autocontrole, pois sem esse, não seria possível expressar nenhum dos adjetivos
listados anteriormente.[1]
Baseados nesse conceito, a
primeira reflexão sobre "os mansos" nos leva para a ideia de um equilíbrio no uso
do poder. Vamos exemplificar através dos cães. Quando dizemos que um cão é
manso, não estamos falando que esse animal é fraco, frágil ou impotente (embora
inconscientemente possamos imaginar isso). Apenas estamos falando que o
potencial de força que ele tem não é usado plenamente. Por ser um animal, ele
tem o poder de nos ferir, mas não o usa, seja porque foi adestrado ou porque
não é movido a agir de forma mais bruta. A partir dessa comparação podemos eliminar a
falsa ideia de que os mansos são por natureza pessoas fracas, tolas, facilmente
passadas para trás e incapazes de usar qualquer força. Os mansos têm poder, mas
não precisam ficar o tempo todo o expondo. Na verdade, os mansos demonstram grande
força justamente por conseguirem controlar o potencial de poder que possuem. Os
mansos aprendem que forte não é quem sempre evidencia o poder que tem, mas aquele que o usa nos momentos certos. A mansidão valorizada por Cristo é o uso do poder
de uma maneira divinamente pretendida.
Ser manso também nos ensina a
ter um equilíbrio no uso dos nossos direitos. É possível que pensemos: “se
são meus direitos, não deveria usá-los como eu bem entendesse?” Sendo
filhos de Deus, não nos convém usar nossos direitos como bem desejamos. Um
exemplo disso é quanto à nossa liberdade de expressão. Posso falar a respeito
de qualquer assunto, usando qualquer meio e com as palavras que eu bem entender?
Teoricamente sim, contudo, se a liberdade que tenho é pedra de tropeço para
outra pessoa, seria essa uma atitude cristã? Se compartilho notícias sem
revisá-las ou pensamentos sem antes de uma reflexão sobre o quão benéfico ou
não são aqueles conteúdos – tanto para mim quanto para o próximo – estaria eu
agindo de maneira correta? É normal que em momentos de estresse e tensão
justifiquemos nossas atitudes de rispidez e violência diante de alguém. Embora
o mundo nos ensine a não levar desaforo para casa (não tanto como um direito,
mas até como uma obrigação), deveria ser esse um direito usado por um discípulo de
Jesus?
Como cristãos nunca podemos esquecer que
exercemos nossos direitos em prol do Reino de Deus, não do nosso
reino pessoal ou do reino terrestre desse mundo. Os mansos agem dessa forma: reconhecem os direitos que têm, mas não se esquecem que o seu principal senhor
é o próprio Deus. Ele é quem tem a palavra final.
Além disso, ser manso desenvolve em nós um
conceito humilde acerca de quem somos. Isso nos fará não apenas aceitarmos a
repreensão de Deus, mas também as correções que vêm por parte de outras
pessoas. Normalmente, aceitamos de forma mais tranquila uma autocrítica.
Dizemos reconhecer nossos erros e nossas limitações. Contudo, se essas mesmas
considerações partem de outra pessoa (mesmo que essa pessoa use as mesmas
palavras), não lidamos muito bem. Isso pode significar um falso senso de
humildade, apontando assim para um desequilíbrio acerca de quem realmente
somos. Esse desequilíbrio pode nos levar a julgar o nosso próximo com pesos e
medidas desbalanceados, ou seja: criticamos o cisco no olho do irmão sem
perceber a trave que se encontra em nossos próprios olhos. (Mt 7.1-5)
Por fim, com os mansos também
aprendemos a esperar pacientemente pelo agir de Deus. A promessa que acompanha
os mansos é a herança da terra. Era de se esperar o contrário, já que nossa
sociedade prega de forma exacerbada que para conquistar o mundo é preciso expor
a força e as vontades que vêm do próprio coração. O problema dessa ideia é que
a Bíblia nos ensina o quanto o nosso coração é enganoso e que, portanto, aquilo
que julgamos ser certo pode, na verdade, nos conduzir à ruína (Jr 17.9). Mas o
mais grave dessa ideia é nos esquecermos que se estamos em Cristo, a herança já
está garantida, uma vez que somos coerdeiros com Ele (Rm 8.17). O real detentor
de toda a terra é o próprio Deus, sendo assim, os mansos esperam pela plena
redenção. Eles podem assim como Paulo dizer que embora não tenham nada, já
possuem tudo (2 Co 6.10), justamente por estarem em Cristo.
Que o Espírito Santo nos
ajude diariamente a sermos os abençoados mansos que herdarão a terra.
[1] STOTT,
John R.W. A mensagem do Sermão do Monte: Contracultura cristã. 3. ed.
São Paulo: ABU Editora, 2008. p.32

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